Esquerdistas x Coxinhas: por que é tão difícil defender a liberdade?

Por que é tão difícil defender a liberdade? Este texto inaugura a categoria de Política aqui no Explorando ;-) É um experimento, não sei que rumo tomará. Poderá ter novos textos em breve… Ou não. Fiz também uma sobre vida pessoal, falando de relacionamentos e afins!

por Marcos Elias

Queria entender qual é a maior dificuldade das pessoas em defender as reais liberdades do ser humano. Por que é tão difícil defendermos publicamente características dos nossos instintos?

Vemos de todos os lados pessoas tentando controlar as outras. Umas pendem mais para um conjunto de regras, outras para o outro… O pessoal fica tão polarizado entre esquerda e direita… E acaba não percebendo quão prejudicial isto é.

stop wars

Foto de Joshua Rappeneker (CC)

Exemplo: a causa gay. Precisa mesmo ser “de esquerda”?

Por exemplo, defensores da causa gay. Por que tantos defensores da causa gay se identificam com a esquerda? Não é difícil perceber: os movimentos que se dizem de direita normalmente vão contra direitos dos gays, diferenciando-os das demais pessoas. A esquerda os abraça. Pelo menos a atual, já que antigamente os fuzilava. Então é meio natural que os gays partam para a esquerda. Só que ela não é a única opção, sabia?

É necessário mesmo defender um conjunto de ideias tão pesadas apenas por causa de uma meia dúzia de direitos? Ao irem para a esquerda eles acabam defendendo, mesmo que não queiram, uma alta intervenção do estado na economia, o que tem causado resultados catastróficos em todos os países em que estas ideias foram aplicadas… Os gays poderiam defender direitos iguais sem precisarem defender intervenções econômicas, altos impostos, protecionismo, barreiras na importação, etc. Tudo coisas que a esquerda brasileira tanto defende e propaga.

Troque gays por mulheres que querem ter o direito de abortar sem serem presas, ou por usuários de substâncias que dão prazer, ainda que causem mal aos seus próprios corpos (drogas). A ideia é a mesma: esse pessoal vai para a esquerda e leva o conjunto todo, tanto as coisas boas como as ruins dela. A direita os empurra naturalmente para a esquerda. E os políticos de esquerda, como não são bobos nem nada, abraçam tais causas com o intuito de obter mais votos e abocanhar o poder. Assim eles podem dar conforto aos seus reis enquanto afundam todo o país com suas propostas megalomaníacas de dominação e controle da economia. Que parece que nunca deram certo efetivamente em lugar nenhum, diga-se de passagem.

Não são só os esquerdistas: os direitistas também prejudicam a liberdade!

Do outro lado a coisa também é válida. O pessoal que defende o armamento civil para segurança pessoal e patrimonial, o livre mercado, o empreendedorismo… Por que esse pessoal precisa necessariamente atacar as coisas boas da esquerda?

As pessoas ficam divididas. É complicado lidar com esse “muro”. Como libertário, fico besta de ver. Por que é tão difícil defender as reais liberdades?

É possível defender tanto ideias “de esquerda” como “de direita”?

Movimentos de esquerda e direita defendem conjuntos de ideias. Você pode pegar as melhores para si e montar seus próprios valores, sem precisar ir na onda de todo mundo.

Claro que cada um tem seu conceito de liberdade. O que é liberdade para um libertário pode ser visto como abuso ou opressão por um esquerdista ou direitista. Mas falando de algumas liberdades básicas que julgo essenciais… As pessoas deveriam se apegar mais a ideias individuais e esquecer os pacotes completos.

Eis algumas ideias que muitos libertários defendem:

Ideias tidas como de “direita” no Brasil:

* Direito à propriedade privada
* Direito ao livre mercado, com pouca ou quase nenhuma regulação estatal
* Direito à segurança pessoal, corporativa e familiar
* Direito à liberdade religiosa individual, porém sem coerção nem adoção de uma delas como padrão pelo Estado
* Fim de cotas raciais (que institucionalizam o preconceito)

Ideias tidas como de “esquerda” no Brasil:

* Direito à descriminalização do aborto nas primeiras semanas de gestação (é polêmico, renderia um artigo exclusivo)
* Direito ao uso e produção de substâncias de uso pessoal (conhecidas como drogas), ainda que elas façam mal ao corpo (também renderia um texto só disso…)
* Direitos iguais para todos: casamento gay se o casamento hétero existir; adoção para casais gays se héteros puderem adotar (num nível de ideias mais abrangente, acho que o Estado não deveria sequer regular o casamento entre héteros… isso cabe a cada pessoa!).

Quem defende estas ideias libertárias facilmente é taxado de reaça ou coxinha pelos esquerdistas, e de comunista, petista e daí para baixo pelos direitistas. Ambos os lados atacam, e atacam bem…

Ainda que você seja um libertário e discorde de um ponto ou outro (muitos libertários são radicalmente contra o aborto, por exemplo), provavelmente sabe como é isso. Eu vivo isso entre amigos, já que defendo muitas ideias libertárias.

As pessoas são complexas demais para serem rotuladas!

Engraçado, ou melhor, trágico, é que mesmo dentro de um grupo rotulado e assumido há divergências. Os esquerdistas muitas vezes defendem o livre mercado sem perceber: muita gente vende artesanato na rua, alguns montam barracas ou andam com carrinhos vendendo produtos, alimentos e serviços. Eles não curtem intervenção estatal nessas horas: a polícia e guarda municipal combatem o comércio “clandestino”, apreendem mercadorias, batem nos vendedores… Esses vendedores, não todos, muitas vezes idolatram muitas ideias esquerdistas. Mas não percebem o monstro que estão defendendo: o Estado controlador de tudo e de todos.

Para eles, defender partidos de direita é complicado, mas ao defender partidos de esquerda cavam a própria cova – sentem na pele isso ao terem suas mercadorias apreendidas. Num livre mercado, desde que não fossem roubadas, as mercadorias poderiam ser vendidas sem o menor problema! Compra quem quer. Pobres se beneficiariam imensamente de um estado mais livre, com menos burocracia, menos impostos e maior liberdade econômica. Mas o radicalismo e o apego aos rótulos não deixam as pessoas perceberem isso.

E o pessoal da direita não fica atrás não. Eles também defendem algo que pode ir contra eles mesmos no futuro: muitos são entusiastas da entrega de alto poder para forças policiais e militares, mesmo sabendo que tais forças precisam ser mantidas com impostos e tradicionalmente oferecem pouca transparência sobre suas ações e gastos. Estas forças seguem o comando do Estado, não a vontade do povo. Na hora de remover alguém à força de sua propriedade para beneficiar um grande empreendimento de algum amigo do prefeito (seja uma obra pública ou um shopping center), lá está a força policial. A mando do Estado. Quem tanto defende este tipo de intervenção acaba defendendo também alguém que irá contra você mesmo, mais cedo ou mais tarde. Basta uma canetada do chefe do Estado.

O ponto em que quero chegar é: por que é tão difícil defender liberdades individuais?

Acredito que crime mesmo é roubar, matar, estuprar, violentar, invadir propriedade. Fora isso, quase tudo deveria ser liberado. As pessoas deveriam ser donas de si. Quem passar da linha e afetar o espaço do outro deveria sofrer punições ou correções, ainda que para isto algum imposto precisasse ser coletado.

Não consigo imaginar na prática um sistema completamente anarcocapitalista (ancap): acho um tanto quanto utópico. Um estado mínimo já bastaria. Cuidando da segurança pública, fronteiras, quem sabe saúde e educação – sem atrapalhar as iniciativas concorrentes do mercado, claro. E só.

Em vez de defender um conjunto de ideias que você não concorda totalmente, tente defender ideias isoladas. Acredito que lhe faria bem. E talvez você perderia menos amigos por causa disso.

Em vez de defender com unhas e dentes Lula e Dilma ou o Aécio e Bolsonaro, tente defender as ideias isoladas por trás de um ou de outro. Colocar as mãos no fogo por uma pessoa, dando todo o poder de decisão para ela, e assumir um rótulo por isso… Não me parece tão legal na prática. Você pode estar sustentando o monstro que amanhã irá tirar os seus direitos. Enquanto são os direitos dos outros, você não vai ligando… Uma hora chega em você e na sua família. É questão de tempo.

Tente defender a liberdade. A real liberdade. O que cada um faz com sua vida deveria ser da conta da própria pessoa! Seria bom para você também, já que provavelmente você não gosta de ninguém mandando na sua vida, não é mesmo?

Mais um exemplo: a proibição do álcool

balada bebidas

Foto via my3000miles.com (CC)

Gosto do exemplo das drogas, nesse caso: muita gente da direita é radicalmente contra a liberação, mas muitos fumam e bebem… Por que só as suas drogas favoritas devem ser liberadas, e as outras não? Defender a própria liberdade e restringir a do outro me parece uma posição hipócrita. O conceito de certo ou errado, justo ou injusto, liberado ou proibido é relativo, jamais fixo! Pesquise e estude sobre a lei seca nos EUA de antigamente e veja o caos que foram as tentativas de proibir o álcool.

Se você curte bebidas alcoólicas mas abomina a liberação das demais drogas, deveria repensar um pouco o caso. Se não fossem as lutas contra as leis, hoje quem sabe você não poderia nem tomar sua cerveja em paz! Teria que tomar às escondidas, correndo o risco de ser preso ou morto por isso… Exatamente como as pessoas que só querem se divertir usando suas plantas ou substâncias sintéticas em algumas festas.

Drogas fazem mal? Que façam, mas o corpo é de cada indivíduo… Aí entraríamos numa outra questão libertária polêmica: a saúde “pública”. Nada é de graça. É injusto atender com dinheiro público roubado de todo mundo um paciente que usou droga sabendo que faria mal? Eu concordo que sim, é. Mas também seria injusto atender pacientes com doenças decorrentes do fumo ou uso de álcool… Se fosse seguir a mesma lógica.

Ideias fixas não levam a nada!

Pense bem antes de se doer ou defender com a alma algum político, partido ou ideologia mais radical. Você levará no pacote várias medidas injustas, se analisadas com maior cautela.

Concordar 100% com alguém ou com alguma ideologia é praticamente impossível mesmo. E mesmo com você: se você é um ser pensante, deve estar apto a trocar de lado ou opinião diante de outros fatos ou discussões. Ideias fixas não levam a lugar nenhum. O mundo muda, novos pontos de vistas podem ser apresentados… Pensando “fora da caixa” muitas vezes mudamos de lado e reconhecemos nossos erros. Ainda que tarde, às vezes.

Não quero perder amigos ou colegas por causa deste texto. Não estou do lado da Dilma, Aécio nem Bolsonaro. Mas ao mesmo tempo não me isento totalmente. Todos eles vão usar o seu dinheiro – o nosso dinheiro – para ditar a sua vida. Algo de errado não está muito certo.

Então das interferências, a menor! Se possível, vote em políticos libertários. Se eles existirem. Eu estou procurando. :(

Leia mais sobre libertarianismo para se informar!

Infelizmente o partido Liber não rolou ainda (precisam de mais assinaturas e apoios). O NOVO fica meio em cima do muro na questão das liberdades individuais, não me parece tão liberal assim, apenas na parte econômica – já seria um avanço e tanto, mas a liberdade pessoal é tão importante quanto.

Alguns links que recomendo:

Partido Libertários, algo bem abrangente tanto nas ideias de liberdade individual como comerciais (veja o menu Ideias):
http://libertarios.org.br/liber

Instituto Ludwig von Mises Brasil:
http://www.mises.org.br/

Instituto Liberal:
http://www.institutoliberal.org.br/

ILISP:
http://www.ilisp.org/

Instituto Libertare
http://institutolibertare.com.br/

Naturalmente isto é apenas um ponto de partida! A política é feita de pessoas e afeta a vida de todo mundo. Reflita um pouco. Existem opções além dos extremos. Mesmo sem concordar com tudo, faça um esforço para sair do paradigma de que apenas a direita ou a esquerda pode representar a população. Acredito que ninguém vai concordar com tudo, mesmo!

Você não precisa ser 100% libertário, ancap ou anarquista. Mas também não precisa defender restrições na liberdade econômica apenas se quiser fumar um baseado ou abortar sem ser tratada como assassina. Da mesma forma, você não precisa ser a favor de uma ditadura para defender o livre comércio, menores impostos, menor burocracia… Coisas que a esquerda brasileira sempre vai contra. Fuja dos paradigmas binários e extremistas. Como pessoa, você só terá a ganhar!

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